sul
Em tempos, conta-se, ouvia-se um tropel nesta longínqua praia, nas noites de temporal. Às crianças pedia-se que se escondessem, que fechassem portas e janelas e soprassem as candeias. O ruído, vindo do mar, cada vez mais próximo, era o sinal do desencantamento eminente. Em contacto com a humidade e o medo, havia que passar aquela fresta do tempo, de onde escorriam sonhos com desejados mouros, cavaleiros monges e marinheiros perdidos. As velhas rezavam palavras que ninguém guardou, afastando com elas os misteriosos visitantes.
Por isso, nestas paragens, pensa-se, ainda hoje os espaços são abertos, suspensos da luz e do pio inquieto das aves.
Aqui vou permanecer, por vontade, no solo, entre duas pedras verticais. Assim se explica – entendes? – que o meu corpo se faça mais pequeno, para melhor se afeiçoar à estreita morada que o oculta, na incerteza da próxima tempestade.
Etiquetas: aves, tempestade, tropel
