31 agosto, 2006
30 agosto, 2006
ir não ir
por onde se diluiram os pés em que pedras se escondem que folhas reviram e perdem quantas buscas fizeram, percorridos espasmos, medo, gelo, lâminas.
agora é tempo de voltar ou ir de novo ou nunca voltar sempre é inútil revoltar melhor ficar seja onde for,
ficar mesmo perdendo a última melancia, o último navio, o último mergulho.
28 agosto, 2006
nossa senhora, quim, roberto


25 agosto, 2006
...
Às vezes sabe bem um abraço
um afago da alma
segurá-la com as mãos inteiras
segurá-la só.
Não deixar cair e voltar a pousar com carinho
com receio mas sem medo.
Um toque suave, um roçar inocente
um carinho ternurento, um olhar envolvente...
pode não ser ali que vais encontrar
mas é ali que sabes que ainda vais encontrar
(e que existe).
23 agosto, 2006
No mês de Agosto há muito tempo atrás
Nuvens desbotadas pela luz descendente
Véu diáfano no horizonte
tentando encobrir a imensa linha azul
que luta pela ribalta com a poderosa e maciça costa.
Porém, a manta escura e carcomida
aproxima-se para abraçar a luta escusada.
Em breve quem ditará as regras
será a enorme bola que se ergue
apoiada pelo rei que acaba sempre derrotado...
06.08.98
Algarve
22 agosto, 2006
Dois olhares...
Um sorriso...
Duas bocas...
Uma alma...
(Metade minha,
Metade tua,
Mas uma só alma)
Um sentimento...
...Mútuo...
Uma vida...
...Partilhada...
Uma esperança...
...Tua...
...Minha...
...Eterna...
Um sonho...
Quatro olhos que se fecham...
O mesmo sonho...
...Estas lá...
...Estamos lá...
Dois seres...
...Inacabados...
Um ser...
...Perfeito...
Tu e eu...
Eu e tu...
Nós os dois...
Uma pessoa...
20 agosto, 2006
casas-de-sombra
" O dia acaba por passar completamente,
para sempre,
e não houve canção, seja de que espécie for.
Há aqui um problema."
Samuel Beckett, Happy days
" (...) ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga."
José Luís Peixoto, As tormentas
casas-de-flores
havia esta inteireza nas casas,
a evidência das flores, crescer nas paredes
pequenos deuses da floresta
asas de sol
mantas de cor,
estrelas despidas no pó.
à noite, pequenos animais enovelados
descem murmúrios
às traves do silêncio
passos leves de anjo
restos de verde
olhos na terra arada
18 agosto, 2006
17 agosto, 2006
proibido subir ao altar.
a quem serve o que escrevemos?
a quantos, se for de contar imperfeito?
se for de utilidade e a utilidade se aplicar em medidas iguais ao metro ou à polegada?
se o verso for uma reza e a reza ecoar só em nós e para nós, como um candeeiro pessoal que apenas a nós nos ilumine?
a fome mata a fome.
a morte mata a morte.
multiplicar para quê?
a sede mata a sede.
a fome mata a fome.
a morte mata a morte.
deve haver uma palavra boa no interior;
[casa de são dinis. porto. 17 de agosto de 2006]
14 agosto, 2006
mergulho (a água está fria a alma está quente).
vamos pela manhã e depois é tarde: o impulso e depois é tarde, vamos no ar e depois é tarde, suspensos e depois é tarde, fazer assim com os joelhos: mas antes assim com a inconsciência, dobrá-la e lançá-la para a frente assim, empurrando de espanto o corpo: um susto e é já tarde, estamos no ar e é já tarde, bater os braços de nada serve, melhor afilá-los em pontaria errada, o ar que for é, a altitude que for será, a queda que será forá, a pancada do furo e da falta de ar, de nada serve à asfixia a barbatana e o bruáá, o ruído surdo do fundo embrulhado na onda que nos atropela, o olhar perdido, o olhar trocado, a cabeça gelada, o equilíbrio tonto em recuperação e é já tarde, já final do sol, pôr-do-dia quando formos completamente de novo em pé, menos peixes de novo homens de sal em direcção a ti onde que aguardas na areia.
por muitos sorrisos ao sol, por muitos banhos que me dês, juro que hei-de escapar desta praia, juro que depois é tarde.
[praia da amorosa. viana do castelo. 13 de agosto de 2006]
11 agosto, 2006
júlia, alice, luís

lx 2006/08/06
pó
a melhor parte dos blogs são os comentários aos textos e às imagens dos outros; gosto de ficar, de criar o tempo para ficar a viajar nas palavras que estão ali e que foram escolhidas, pre-cisa-mente escolhidas no meio de todas as outras por aquela, digo, aquela e nenhuma outra pessoa naquele momento.
é um exercício engraçado, feito de bocados do outro e bocados de nós que são convocados, uma plasticina de tempos e reflexos que recria e molda algo de fundamentalmente imprevisível. gosto do tempo que demora este processo, de despir o que ali está para ser despido e revelado ou então de ficar a ver quantos vestidos vestem aquelas palavras, quanto tempo dura o som dos olhos no restolho antes de escurecer, antes de clarear...
curiosa-mente, muitas vezes vejo e sinto muito mas pouco ou nada acrescento ao que vi ou li. talvez algum pudor, medo, talvez o horror de me traduzir num " a -vida -é -assim..." ou "então -ainda -se -quase-morre- de -amores?" ou " vá,-então, -afinal -...?",o certo é que o que gosto mesmo, é dessa viagem sempre fresca, nunca encerrada - sem destino e sem desfecho, das palavras e dos sentidos em cruz. do pó do caminho.
tãopraiapele.
imaginemos uma praia longa tão longa a perder de vista longa tão.
há a lógica areia a terminar a espuma e a evidência da onda a afundar a terra.
mas o paradoxo mantém-se, ainda que o areal perdido ou o final deserto do pôr-da-tarde:
o mais humano que ali se vem prostar em desejo final sobre a toalha se lança em caminhada eterna à beira-mar na procura de sentido.
não bastam as cores de calções.
não são suficientes os cheiros cremosos.
em débito penas gaivotas.
mancam os sorrisos de sal e os jogos molhados.
tem de haver um tesouro escondido no dourado ou a caravela que nos embarque no horizonte.
assim se compreende a praia.
no final um início para lá de.
como um esforço mais para lá de um limite.
haver a tua pele longa tão longa, amor, e para cá todo o teu bronzeado longo tão.
[praia da amorosa, viana do castelo. 11 de agosto de 2006]
10 agosto, 2006
Do fundo do baú
Só, na sala silenciosa.
Casa vazia, jardim morto.
Parece que a morte se avizinha...
Só, no quarto desabitado.
Cama feita, janela fechada.
A morte já chegou.
Invadiu a minha alma,
sugou-me o coração,
encheu-me o cérebro de imagens
do passado longínquo e feliz.
Só, na varanda quieta.
Rua serena, sem passos e risos.
A noite está a nascer...
Tudo vai ficando escuro,
não há lua, nem estrelas.
Só, no corpo invadido.
Alma morta, cérebro vazio.
Só o meu coração está cheio,
inundado de ti.
03.11.95
08 agosto, 2006
Sem título
Era plano, vazio. Alguém viu um bloco disforme, rugoso, de pedra. Então transformou-o num quadrado polido, suave. Tricotou uns buraquinhos, picotou um rectângulo vertical. Protegeu o quadrado com um chapéu de três bicos... porque se não tivesse três bicos não era seu.
Cortou pelo picotado e abriu. Lá dentro havia laços, cores. Rosa para sorrisos, azul para lágrimas, vermelho para o amor, preto para a noite, amarelo para as estrelas e branco para a serenidade.
Abriu o tricotado para fora e deixou entrar o doce, o amargo, o silêncio, o riso, a música, o ruído...todos os sabores e sons do mundo. Prendeu o tricotado com um botão e depois deixou que as cores, os sabores, os sons e cheiros se misturassem, se recriassem, se unissem. Assim fez um coração da pedra.
Veio uma bola. Laranja como o fogo. Queimou o tricotado, rasgou pelo picotado e arrancou os bicos do chapéu. O quadrado desmoronou quadradinho por quadradinho e ficou em losangos no chão. Libertaram-se os sabores, os cheiros, as cores e os sons. Dissolveram-se no ar. Ficou apenas cinza, silêncio, queimado e amargo. Assim se fez um coração de pedra.
07 agosto, 2006
O sussurrando roubado
Não é nada novo, e cada um é único,
as voltas das coisas, das cores,
dos cheiros e das memórias,
tudo gira à volta dos dias também.
Os desejos, por hoje, ficam para amanhã.
Que eu não quero ter mais forças. Aborrece-me.
Apetece-me vegetar por um final de tarde,
apanhar na cara o vento e as areias da praia,
Deixar as estrelas e as meta-físicas para outros.
Apetece-me não pensar, apenas ver a casca,
O reboco, o talhado do por do sol.
E nada mais.
Um último suspiro encerra os pensamentos,
Leva para longe todas essas coisas assim.
Concentro-me no som das ondas,
na silhueta dos moinhos, nas dunas,
e nas cores que rematam o dia.
07.08.06
06 agosto, 2006
...
Estás ai, sempre ai, debaixo de um céu que chove... mas sem chuva... vejo-te... olho-te... sinto-te... ou não estas... Serão sonhos meus? Que sejam sonhos, porque sonhos vivem mais que o carnal... só sonhos vivem... só sonhos morrem... e eu sem ti morro... morro de dor... morro de medo... morro de saudade... morro de amor, e amor é doença já dizia Pessoa... mas morro de morte por não te ver... és veneno talvez... morte de meu ser. E vejo e revejo esse esse céu sem cor, essa chuva de dor que cai como desalento abandonado. E tu continuas ai... e eu continuo a te ver... olhar... sentir... mas não te encontro... e tu continuas a ser a minha visão mais sagrada... mas profana... o sonho mais oriundo da alma... e desfragmento todo o corpo para te atingir, mas pareces fugir... e eu choro...
Mas como posso eu chorar a falta daquilo que nunca foi meu?...shhhht
As folhas passam, e algumas, ficam mesmo a branco. Mas eu sinto necessidade de deixa-las assim, respirar, para que mais tarde tenham espaço para eu trabalha-las. Deixa-las amadurecer, ganhar manchas, pontos, rabiscos, contornos, que as torna únicas. A luz, essa, dá-nos um olhar deambulante a cada folhear. Apetecia-me falar de tudo, mas nas palavras não encontro nada. Tiro fotos, capto imagens, até as pilhas se esgotarem. O horizonte, amanhã, passará por aqui outra vez.
04 agosto, 2006
não o silêncio, meio termo, talvez, quanto baste, talvez.
recolher as cores trazidas, esquecer um pouco a sua mão

parecer que, parecer.
[praia da amorosa.viana do castelo. 4 de agosto de 2006]
Sara Costa Outside the window
E veio a Sara propor-me um desafio: que tal trocarmos os posts? eu apresento-te e tu apresentas-me?... fica aqui a minha tentativa...
A janela está escura, mal se vê para dentro. Todo o interior se mantem guardado pelo mistério. Uma pequena chaminé solta vapores de vida. Saem letras, palavras, névoa de frases em sequência, cadência e sincopadas. Um ponto final surge. Tudo para. Ando à volta da casa, e tento descobrir uma fenda que seja, que me permita descobrir um pouco mais desse mistério. Uma luz precipita-se numa das janelas. Chove perto do horizonte, as montanhas agitam-se na tempestade, o sol deixa um rasto de encarnados nos céus. Voltam letras a sair da casa. Jorram frases para os céus, as nuvens pedem. Pouco depois um rio de àgua desfalece das nuvens. Tudo ali parece obedecer ao sentido das palavras, das letras. E a janela voltou a estar escura...
uma amiga chégada as known as the soulmate, acerca da Sara:"eu acho que ela continua um misterio para toda a gente!!"
E dito isto...
qualquer coincidência é mera influência
Joel Faria The man who stole the wisper
O Joel, o meu amigo Joel :)
Sei que por muito que divague aqui nunca conseguirei dar a entender verdadeiramente a pessoa fantastica que é o Joel... mas posso tentar... ou talvez não possa, não posso dar a entender como é uma pessoa, mas posso falar dele de outro modo :)
Acho que começo por falar do amanhecer que ambos vislumbramos, o céu a retomar as cores diurnas, o primeiro raio de sol que trespassa as arvores onde os primeiros passarinhos cantam (aqui tem um que canta as 4:30h, já te falei dele, canta as estrelas), e nós ficamos sentados a olhar o Sol nascer por entre os buraquinhos da persiana (também olhas pelos buraquinhos da persiana? Eu olho) e quando decidimos ir dormir já os raios de Sol nos cruzavam os quartos (beautiful).
Ai como sou má influencia e te faço ficar na Net até ser dia...
E Arte, és apaixonado por arte, desenho, fotografia, música, etc. Por todo o tipo de arte, e desenhas como só os Anjos meu amigo :)
Que mais poderei eu dizer deste menino? Talvez até nem seja a pessoa ideal pra falar dele, não conheço a muito tempo, mas parece... Parece que sempre o conheçi... Pareçe que sempre me conheçeu. Por isso digo e afirmo que o Joelito mesmo sendo o menino silencioso sempre a rabiscar na sua folhita durante a oficina de escrita :), é uma pessoa fantastica de um coração ENORME, um amor de menino :)
Bem... sem saber mais o que escrever... vou esperar o Sol nascer (ficas aqui comigo hoje?).
Com os maiores comprimentos a todos
Sara Costa
03 agosto, 2006
ai as férias!
Sim, claro que há inveja aqui! E não sei se só falo das vossas férias...desculpem o mau jeito, mas gosto des-con-certada-mente de amarelo.
Pois, estão todos por aí, eu também vou estando por dentro de mim, presente e ausente, quando repito interminavel os gestos prescritos e proscritos de todos os dias, irreconheço lugares e pensamentos de sempre, as mulheres que anseiam à porta das lojas por um cavalo branco mesmo que não branco, azul, mesmo sem cavaleiro...
A vida a entristecer um pouco mais ao cair da noite, já quase a desejar os rumores das praias apinhadas, suspender luas no ranho dos meninos, sentar-me entre as famílias que sussurram entre si, que gritam silêncios de cimento, se pudesse matava-te, se não tivesse medo que alguém reparasse, torcia-te o pescoço aqui mesmo e ia para casa a correr,andar nu , dançar, sim, já quase a desejar ser eles quando me olham com olhos de animal espantado, pontes fora, ruas dentro, virar ali, a mesma porta, os mesmos traços,a mesma perna para fora do carro desembrulhado doutros carros agoniadamente iguais...
Porque ando a frequentar funerais nestes dias de verão e pergunto ansiosamente a toda a gente como se chora, se ainda se chora? ainda se pára nestes dias gerais das férias para ficar muitas horas no silêncio? como podem os cadáveres caber no verão quando o vento mal se pres -sente e no entanto é capaz de furar os olhos e atravessar a língua? Mesmo as palavras estão agora relaxadas, pouco o reboliço, o fogo arde amarelo, papel, palavras contorcidas, pois que seja verão...
02 agosto, 2006
Uma pequena oferenda
Este ano dei aulas a uma turma de sétimo ano e um dos meus alunos tem um avô que teve a imensa sorte de conhecer e ser grande amigo do meu poeta Eugénio de Andrade. Este aluno partilhou comigo alguns poemas que o Eugénio dedicou ao seu amigo. Agora é a minha vez de partilhar convosco esta pequena dádiva que me foi concedida. Está escrito com a letra de Eugénio de Andrade e tive de descodificar o que ele escreveu. Espero não ter cometido nenhum lapso. Se cometi, peço perdão. Aqui fica:
As Palmeiras
Também o deserto vem
do mar. Não sei em que navio,
mas foi desses lugares
que chegara ao seu jardim
as palavras.
Com o sol das areias
e a cada folha,
o sopro das estrelas.