
retiro os anéis dos dedos: venho falar do fio onde nos devemos suspender.
será horizonte se o olharmos de frente.
venho falar do fio onde nos devemos suspender como um desequilibrista sem rede e/ou uma aranha com invertigens, um suicida à penúltima janela, uma saudade súbita em amante que trai:
os dedos com anéis dificultam a digitação e por tal os guardo porque o que pretendo escrever:
simples: directo:
assim o fio deve ser:
unindo claramente a língua à inquietação, inequívocamente os astros, todos, caibam no interior e no externo da erecta nossa cabeça (lá se guardam símbolos), no exterior e no interno da nossa cabeça erguida (lá desesperam fantasias):
concerteza a merda à virtude.
por pouco que eu deseje desejo tudo e desejo nada, o olhar dela e o seu buraco.
uma ligação honesta parecendo um fio eléctrico e uma ligação eléctrica: vermelho com vermelho preto com preto e terra (ligando à morte).
não tem que ser formosa, a linha.
não tem que ser lã rançosa.
a baba não tem que rimar (mas podem surgir quadras populares).
não tem que agradar a cediela aos peixes que na boca arrasta por anzol cravado no céu.
não tem que: ser apenas verdadeiro em nós, capaz de nos suspender sobre o abismo(jamais outro fio se partirá tanto).
como procurar é pergunta.
quem o faça lendo poemas.
como o descobrir é questão.
o meu fio sinto-o por cima e balança-me no ar sobre vazio em (frequente) amputação dolorosa de pés.
não sei que travessia faço nele, que trajecto faça.
não é um horizonte, tantas vezes olho para baixo o medo no fundo me borro, mas uma lâmina afiada onde os dedos se cortam.
o que de certa forma lamento.
magoa recolocar os anéis.
o que de certa forma parecem lamentar balanços vizinhos:
para dedilhar viola seriam mãos tão belas.
venho ainda falar e para terminar: vão-se os dedos e depois os anéis, de seguida os poemas e toda a teia (quer a bonita como a feia).
o que de certa forma lamento.
[casadoameal.oliveiradohospital.coimbra.19deoutubrode2006]